LÔ BORGES NOS CLUBES DO CLUBE DA ESQUINA

 

E O ESQUECER

ERA TÃO NORMAL

QUE O TEMPO

PARAVA…

A marca do ano era o número 1978. Ainda sob os desígnios da ditadura militar, o Brasil pensava que poderia dar certo o governo forte dos generais. Quiçá, ao que parecia, tínhamos sido salvos do comunismo em 1964. E, mesmo com a estrondosa votação que o MDB tivera em 1974, a força das armas e da tortura poderia, para a maioria das pessoas, trazer ordem, justiça e tempos de melhor qualidade de vida ao povo sofrido. Ledo engano. Eram os afetos que ainda poderiam nos salvar...

Ano de 1978. Não eram aconselháveis grandes manifestações populares. Mas em 1977 já houvera um show histórico em Três Pontas, Sul de Minas, terra de Milton Nascimento, algo que surpreendeu até mesmo o governo ditatorial da época. Ali os grandes artistas foram tendo naturalmente vontade de ir e topando se encontrar.

O povo também foi chegando de uma forma espontânea, para cantar, sonhar um pouco, viver momentos mais significativos. Chegou o Chico Buarque, depois a Clementina de Jesus, veio o Gonzaguinha. Chegaram lá a Fafá de Belém, depois o Francis Hime, e ali já estavam, além do Milton, o Beto Guedes, o Wagner Tiso e o menino Lô Borges. O evento, que, pela mesma espontaneidade de organização, levou o nome depois de Woodstock Mineiro, reuniu 10 mil pessoas sem um incidente desagradável sequer. Acabou a comida na cidade, não haviam banheiros suficientes na pequena Três Pontas. Mas deu tudo certo.

Nós, o pequeno grupo de amigos do violão, da província, já sabíamos que, pelo movimento que se processava, seria mágico. Mas não fomos. Tínhamos na faixa 14 anos e, numa cidade pequena, não tínhamos coragem para sair de casa sozinhos pedindo carona. Mas, afinal, tínhamos (alguns) nossos violões...

Lançado em 1972 foi só em 1978 que chegara às nossas mãos o LP duplo Clube da Esquina, emprestado de não me lembro quem. No aparelho três em um da grande casa de meu pai ouvíamos aquilo por dias seguidos, extasiados de felicidade. Outros pouquíssimos amigos da cidade, que já tocavam violão como eu, também maravilhados, se perguntavam como “alguéns nesse mundo” poderiam ter feito canções tão tocantes? Dado os acordes tão maravilhosos, originais, e pudessem ter criado uma sonoridade que era mistura de África, Beatles, rock, regionalismos mineiros, jazz. Letras que pareciam falar de nós mesmos...

Sentíamos como se tivessem criado uma língua nova na qual muitos ou todos pudessem se comunicar. E se se pudesse falar e cantar essa nova linguagem para o futuro. Milton já era nossa maior referência. Era a mesma sensação extasiada quando podíamos ouvir pela FM, captada por uma antena especial, alguma rádio do Rio, e aí aparecia a canção “Amor de Índio”, cantada por Beto Guedes. Era hora de pular pela casa. Sentar na praça ou nos botequins... Cantar o dia inteiro ao violão. Como alguém pode compor uma coisa dessas?

Do Clube da Esquina aprendi a tocar “Canção Amiga”, um poema de Carlos Drumond que Milton musicou. A genialidade sonora de “Canoa, Canoa”. “Cais”, e tinha a “Fazenda” de Nelson Ângelo com aqueles versos que cantávamos com sonoridade:

“Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal

Que o tempo parava
E a meninada
Respirava o vento
Até vir a noite...

E os velhos falavam
coisas dessa vida
Eu era criança,
hoje é você, e no amanhã...

nós”

Por tantas noites tocávamos no bar da província "Tudo Que Você Podia Ser", "Nuvem Cigana", "Cravo e Canela", "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo", "Clube da Esquina nº 2" e o hino “Trem Azul” para plateias que nem conheciam essas músicas. Mas gostavam... De quem é isso? Como se fossem coisa de elite. Que língua tão bonita esse povo tá falando? A arte marca aquilo é humano. A música marca gerações, como um tempo que parou. Parodiando René Descartes, tão descartado hoje em dia, poderíamos dizer que... “a melodia tem razões, que a própria razão desconhece”.

“E o esquecer, era tão normal, que o tempo parava”.

Na época éramos poucos... Mas com quinze anos de idade fomos aprendendo que algumas pessoas são mais sensíveis que outras. Que algumas “linguagens” eram compreendidas, outras não... E não adiantava insistir... Que quando erámos tocados pelo “afecto” causado por uma canção, uma pintura nova, um desenho especial, um poema original, uma imagem sublime colhida na obra de um escritor, tudo isso podia mudar o sentido de nossas vidas... num sentido eterno. E tudo isso se formava muito mais que um lenitivo para a brutalidade e a incompreensão vivida no caminho.

Viver na província era de certa forma viver um exílio. Mas não nos era proibido fingir que fazíamos, de alguma forma, parte daquilo tudo... Mesmo com tanta timidez. Mas a arte nos conectava com essa tribo cósmica...Era o próprio sentido que nos fazia avançar... e cantar tanto.

O menino Lô foi embora dessa dimensão material essa semana. Naquela segunda feira chuvosa muitos correram para a esquina da rua Divinópolis, com a Paraisópolis. Há tristeza, não só em Santa Tereza. Os dias estavam fechados... Mas houve muito glória e alegria ao cantarem todos. Mesmo os que partem estão vivos...


Meses antes de se despedir dessa existência, desde a última visita ao amigo Bituca, no Rio, e impactado pela degenerescência física e mental do amigo, decidiu que iria produzir e compor mais e mais enquanto pudesse ser ele mesmo. Mas ativo. Não foi possível. Nem tudo é possível nessa vida. Nem mesmo a eternidade... Os “clube da esquina” são muitos... continuarão a se multiplicar por aqueles que os criaram.

O que fica é sempre a arte. O real “estar-aí” no mundo. O afeto que nos une. A canção que pode nos identificar com sinceridade, calor e sentido. A linguagem comum. A curiosidade da criação... A percepção de que não estamos sós, e podemos vencer a sensação de exílio.

E aqueles gênios, como o menino Lô que, como numa acepção do pensador Ezra Pound, lembrou serem esses artistas as “antenas da raça”, os grandes captadores.

Que os meninos, como Lô, que sempre viverá em sua arte, possam continuar com suas canções, compondo um mundo e um tempo que "é" e "deveria ser"... e em que possa o esquecer... se tornar normal... para o mesmo tempo... quem sabe... parar.

Parar para que possamos, talvez, nos reconhecermos todos numa só e linear caminhada, percebendo ou buscando decifrar a cósmica canção.



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